segunda-feira, 30 de abril de 2012

Onde Deus possa me ouvir (Vander Lee)

Estava em casa um dia desses e acompanhava, em meio aos afazeres, a minha mãe - a Dona Ádila, na faxina de casa. E ela tem o costume de fazer todas as atividades do lar ouvindo rádio, principalmente aquelas faixas que tocam música popular brasileira. E ouvi, por acaso, a canção de um compositor ainda pouco conhecido pelo grande público, mas que  tem chamado muito a atenção dos críticos, Vander Lee. E a canção que ouvi se chamava Onde Deus possa me ouvir, a qual transcrevo aqui, abaixo:


Onde Deus possa me ouvir

Sabe o que eu queria agora, meu bem...
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pro abismo,
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber

Me deixe aqui, pode sair
Adeus


É uma canção muito triste, mas ainda assim se trata de uma belíssima composição. Nela e o eu lírico parece retratar um estado de espírito inconsolável. Nem mesmo o seu amado(a) e seus "amigos" parecem lhe oferecer o conforto de que tanto procura. Não há lugar que lhe dê paz a não ser o "interior do seu interior" já que ele não entende por que há tanta tristeza, tanta agressão, tanto combate entre os homens. No fundo, seu desejo é que Deus ouça o clamor da sua dor, já que não pode compreender mais nada ao seu redor sendo a solidão a única coisa que lhe resta.

Francis Shaeffer, no prefácio de seu livro A Morte da Razão, nos diz que para comunicar a fé cristã de modo eficiente temos de conhecer e entender as formas de pensamento da nossa geração. Mas como podemos apreender essas formas de pensamento? De muitas maneiras... mas a principal delas é viver em comunhão com o nosso Deus e procurar estudar  a sua palavra,  procurando aplicá-la em nossa vida cotidiana estando, assim, sensível à voz do Espírito Santo que nos "guiará a toda verdade" (Jo 16.13), nos transformando em sujeitos críticos à toda manifestação de pensamento que não seja a verdade do nosso Deus.

O que dizer da canção? Que formas de pensamento (nas palavras de Shaeffer) estão implícitas alí? O apóstolo Paulo deixa bem esclarecido em sua carta aos Romanos que os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas (Rm1.20), ou seja, é com naturalidade que homem reconhece a existência de Deus, desde o início de todas as coisas e através da criação divina. Logo, essa busca pela religião (do latim religare, ou o tornar a se ligar com Deus) é inata à condição humana e é constantemente latente nas manifestações artísticas da atualidade.

Mas essa busca por Deus, que está claramente evidenciada na canção, não representa uma concepção clara a respeito da sua divindade. A verdade é que a frustração apresentada pelo eu lírico pode ser entendida como uma incapacidade da razão humana de compreender a existência de Deus. Ou seja, por mais que o homem procure encontrá-lo, a verdadeira conversão se dará somente quando Ele se der a conhecer ao homem que, por sua vez, crescerá na graça e no conhecimento de nosso Senhor  e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3.18).

Por assim dizer, esta é uma das formas de pensamento da nossa atual geração: a cotidiana solidão e a procura, ainda que inconsciente, da presença de Deus. Creio que o que nos cabe é fazer valer a palavra de Deus quando diz que devemos ir, por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura (Mc 16.15), sabedores de que o mundo carece da palavra de Deus e de que o nosso papel enquanto criaturas é viver de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus (Cl 1.10).

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